Dos mesmos criadores de Furi e Haven, Cairn nos convida a uma ascensão íntima e implacável. Mais do que um jogo de escalada, é uma meditação sobre obsessão, superação e o silêncio eloquente das montanhas. Embarque com a alpinista profissional Aava em sua tentativa de conquistar o inalcançado Monte Kami — um cume que nunca foi pisado — e descubra o que ela está disposta a sacrificar para realizar a ascensão de sua vida. A convite do estúdio, recebemos uma cópia gratuita do game e preparamos uma review da nossa experiência.
Esta análise foi realizada a partir de uma cópia de Cairn fornecida pela The Game Bakers.
ᐳ O chamado da montanha

Na prática, Cairn é um jogo de escalada focado em planejamento, leitura de terreno e gerenciamento de recursos, com progressão lenta e dificuldade elevada. Não há combates tradicionais ou tutoriais extensos: o jogo confia no aprendizado orgânico e pune erros com severidade. A campanha dura cerca de 15 horas e prioriza imersão, tensão constante e tomada de decisões cuidadosas, deixando claro desde o início que esta é uma experiência voltada para jogadores pacientes e persistentes.
Cairn chega logo no início do ano e já impõe sua presença com uma proposta clara e austera. A história acompanha Aava, uma alpinista profissional que decide enfrentar o lendário Monte Kami, um pico onde nenhum ser humano jamais chegou ao topo. A premissa é simples, mas a jornada, que dura cerca de 15 horas, é densa e reveladora. A escalada se torna uma metáfora poderosa: cada piton cravado, cada corda esticada, é um passo para fora do mundo comum e para dentro de si mesmo.
Ao longo da subida, Aava encontra mais do que rocha e gelo. Ela descobre resquícios de quem tentou antes — suprimentos abandonados, áudios emotivos deixados para entes queridos, pequenas marcas de uma humanidade frágil contra a imponência da montanha. A narrativa é construída nesses fragmentos, criando um mosaico silencioso e melancólico que fala sobre ambição, perda e o preço da glória. Não é uma história contada, é uma história sentida na pele, no cansaço e no silêncio.
ᐳ A parede como um chefe final

A jogabilidade parece despretensiosa à primeira vista, mas revela uma profundidade tática brutal. Escalar não é apenas apertar botões; é planejar cada movimento, gerenciar recursos escassos como pitons, comida e água, e ler a parede como um quebra-cabeça vertical. A dificuldade é implacável e, por isso, profundamente recompensadora. Há momentos em que você fica parado por horas — eu mesmo travei em uma seção específica por quase três — decifrando a única rota possível.
É aqui que Cairn brilha. A escalada exige o mesmo nível de atenção e precisão de um combate contra um chefe em Furi, onde cada erro é severamente punido. Cada decisão importa, cada erro pode ser fatal. O jogo oferece a opção de ajustar a dificuldade, mas a experiência crua e desafiadora é onde reside sua alma. Quando você pensa que dominou a mecânica, a montanha lança um novo obstáculo. É desafiador, sim, mas a sensação de superação é visceral, daquelas que ficam gravadas na memória muscular.
ᐳ Uma sinfonia de vento e granito

Tecnicamente, Cairn é um deslumbre. O visual é impressionante, com ambientes que variam de paredes rochosas austeras a picos gélidos banhados por auroras boreais. A direção de arte consegue transformar a solidão da montanha em algo belo e quase espiritual. Há momentos em que a escalada para, não por dificuldade, mas pela necessidade imperiosa de apreciar a vista.
O áudio, porém, é a estrela incontestável. A trilha sonora e o design de som são assinados pela mesma equipe por trás de Limbo, Inside e Cocoon, e a qualidade salta aos ouvidos. Esta não é uma playlist épica de fundo; é uma trilha ambiental, orgânica, que muda conforme a altitude e a situação. O som do vento uivando, do piton cravando na rocha, da respiração ofegante de Aava — tudo se combina para criar uma imersão quase física.É um dos poucos jogos que utiliza o silêncio como ferramenta ativa de imersão. Dá vontade de ouvir fora do jogo, mas a magia está justamente na sincronia perfeita com a imagem e a ação.
ᐳ Bugs na encosta e a recompensa no topo

Os personagens que cruzamos, seja através de áudios ou encontros raros, são carismáticos e cumprem seu papel de humanizar a jornada. Cada um traz um pedaço de história que amplia o tema central: por que subir? A narrativa de Aava, em sua busca por escapar de seus próprios demônios, ganha força nesse contexto. A montanha não é só um obstáculo; é um espelho. E a conclusão dessa jornada, que promete nos fazer “parte de um todo”, é executada com uma sensibilidade que poucos jogos conseguem alcançar. É lindo, no sentido mais puro e arrebatador da palavra.
No lado técnico, alguns problemas pontuais mancham a experiência. Enfrentei bugs visuais e, em duas ocasiões, precisei reiniciar do último checkpoint para continuar. São incidentes que quebram a imersão em um jogo que depende tanto dela, mas felizmente não arruínam a subida.
ᐳ Veredito

Cairn não é um jogo para todos. Sua dificuldade exige paciência e persistência — qualidades de um verdadeiro alpinista. Para alguns, a curva de aprendizado íngreme e a descoberta orgânica de mecânicas podem parecer um desafio excessivo, um jogo que te larga na montanha e espera que você descubra sozinho.
Como jogo, Cairn entrega uma experiência sólida e bem executada, com sistemas consistentes, direção de arte marcante e uso exemplar de som para reforçar a imersão. Seus principais pontos fracos estão na acessibilidade limitada e em problemas técnicos pontuais, que ocasionalmente quebram o ritmo da escalada. Ainda assim, o conjunto é forte o suficiente para sustentar a proposta até o final.
Mas para quem se dispuser a encarar o Monte Kami, a recompensa é uma das mais gratificantes do ano. Cairn é uma experiência que vai muito além da escalada. É um jogo sobre solidão, propósito e a beleza austera da luta contra o impossível. Feito com coração, intenção clara e um apuro técnico notável, é daqueles títulos que ficam na memória — e na alma — por muito tempo após os créditos subirem. Não é apenas uma subida. É uma ascensão inesquecível.

Cairn (2026)
Lançamento 29 de janeiro de 2026 Desenvolvedora The Game Bakers Gêneros Aventura, Simulação, Sobrevivência Plataformas PC, PlayStation 5 Testado em PCCompartihar:















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