Com um primeiro episódio introdutório, Dona Beja começa positivamente ao apresentar seus personagens e conflitos. Ambientada no Brasil do século XIX, a trama acompanha a trajetória de Beja, uma mulher à frente de seu tempo, marcada por paixões, injustiças e a constante tentativa de controlar o próprio destino em uma sociedade rigidamente preconceituosa.
No começo da história, vemos que Beja (Grazi Massafera) é uma mulher apaixonada pelo noivo, Antonio (David Junior) na cidade de Araxá. Porém, quando Antonio vai estudar fora, Beja é sequestrada pelo ouvidor do rei e em meio a encontros e desencontros, Beja e Antonio se separam, até que Beja começa a ascender socialmente para recuperar tudo aquilo que tiraram dela no caminho.
A narrativa acompanha sua ascensão social, os escândalos que a cercam e a forma como sua liberdade e sexualidade passam a ser vistas como ameaça moral. Entre romances proibidos, alianças estratégicas e embates políticos, a história constrói um retrato de época que dialoga com temas universais como poder, desejo, hipocrisia social, preconceito e a punição feminina diante da própria autonomia.
Mesmo com forte apelo novelesco, a série não se limita ao melodrama: o texto busca contextualizar o período histórico, expondo estruturas de dominação que atravessam classe, raça, gênero e moralidade, questões que, embora ambientadas no passado, ecoam com força no presente.
A nova adaptação de Dona Beja, da HBO Max, acerta ao assumir sem pudor seu dna de folhetim clássico. A trama é assumidamente novelesca, mas nunca rasa. Pelo contrário: a leveza narrativa serve como porta de entrada para discussões densas, tratadas com delicadeza e sensibilidade, sem perder o apelo popular que sempre acompanhou a história da personagem.
Os cinco primeiros episódios funcionam como uma construção gradual de mundo e conflitos. O ritmo é cadenciado, permitindo que o espectador compreenda as motivações dos personagens e o que levou a cada consequência, envolvendo com cada escolhas. A série não tem pressa e isso joga a seu favor, apostando no desenvolvimento e nas relações sociais como motores dramáticos.
Grazi Massafera entrega uma protagonista segura, inteligente e interessante. Sua Dona Beja transita com naturalidade entre a fragilidade imposta pelas circunstâncias e a força que emerge de sua resistência. A atuação sustenta bem os contrastes da personagem, como alguém vulnerável sem perder a dignidade e forte sem abandonar a humanidade. É uma composição que dialoga tanto com o imaginário clássico da personagem quanto com uma leitura mais contemporânea.
Visualmente, a produção investe em uma reconstituição de época elegante, com figurinos, cenários e direção de arte que reforçam o contraste entre o luxo, a repressão moral e a violência simbólica sofrida pelas mulheres. A estética ajuda a construir o tom de “novelão sofisticado”, equilibrando espetáculo e narrativa.
Um dos principais méritos da série está em não romantizar completamente as opressões do período. Ainda que a história seja conduzida com suavidade, temas como controle do corpo feminino, reputação, machismo estrutural, racismo e abuso de poder não ficaram de fora, atravessando as relações e decisões dos personagens. Essa abordagem impede que a obra se torne apenas uma fantasia de época, trazendo densidade e relevância ao texto.
No geral, Dona Beja começa com o pé direito: é envolvente, elegante e emocionalmente acessível. A série respeita sua origem novelesca e, ao mesmo tempo, atualiza o discurso para dialogar com questões contemporâneas. Um drama de época que entretém, provoca reflexão e reafirma o poder das grandes histórias clássicas quando bem contadas.
A nova novela da HBO Max estreia em 2 de fevereiro no streaming.

Dona Beja (2026)
Direção Hugo de Sousa; Bia Coelho; João Bolthauser; Rogério Sagui; Thiago Teitelroit Roteiro Maria Clara Mattos; Cecília Giannetti; Clara Anastácia; Ceci Alves Elenco Grazi Massafera, David Junior, Bianca Bin Onde assistir HBO MAXCompartihar:















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