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Crítica: A Mulher Mais Rica do Mundo

Crítica: A Mulher Mais Rica do Mundo

Imagem: Reprodução

“A Mulher Mais Rica do Mundo (2025)”, mais novo filme do diretor e roteirista francês Thierry klifa, conhecido por obras como “Tudo O Que Nos Espera” (2023) e “Segredos de Cabaré” (2006) se apoia na ideia de falsas entrevistas, adotando a linguagem de um falso documentário para contar uma história ficcional. Um recurso que “Daisy Jones & The Six” (2023), minissérie baseada no romance de Taylor Jenkins Reid, por exemplo, explorou com muito mais segurança e naturalidade. Mas, enquanto a série utilizou esse formato para aprofundar seus personagens e enriquecer a narrativa, o filme em questão o emprega quase como um artifício estético, sem explorar plenamente seu potencial.

A proposta, à primeira vista, é promissora: uma sátira ao universo dos super-ricos que escancara estereótipos e deixa sua crítica social evidente desde os primeiros minutos. No entanto, a execução está longe de corresponder à ambição da ideia. O filme se contenta com caricaturas, sacrifica a complexidade de seus personagens em favor da mensagem e transforma uma premissa instigante em uma narrativa superficial, incapaz de envolver ou provocar o espectador de maneira significativa. A obra ainda tenta em certos momentos, ter uma roupagem mais culta, principalmente quando fala sobre temas como solidão ou velhice, e expressa um pouco de seu quê intimista.

O longa, em suas 2h03 de duração, acompanha Marianne Farrère (Isabelle Huppert), a protagonista e detentora do título de mulher mais rica do mundo. Herdeira e atual dona da empresa de cosméticos mais lucrativa da França, Marianne é uma mulher solitária. Apesar de ser cercada pela família e pelo dinheiro, vive uma vida infeliz e desprovida de envolvimento afetivo. Eis que surge Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um fotógrafo de caráter duvidoso que se aproxima da mulher e acaba se tornando seu melhor amigo. A amizade entre os dois preocupa e incomoda todos ao redor da ricaça, principalmente Frédérique Spielman (Marina Foïs), filha de Marianne. É nesse cenário de traição, inveja e ganância que a obra se debruça.

Um dos maiores problemas da obra está, principalmente, em seu roteiro. A trama quase nunca consegue estabelecer uma conexão genuína com o público. É uma narrativa excessivamente contida e que não oferece tensão suficiente para prender o espectador. Além disso, o tempo inteiro causa uma estranheza, como se algo estivesse fora do lugar, e acaba que isso distancia o espectador. Os personagens são rasos. Alguns, como Jérôme (Raphaël Personnaz), até demonstram certo potencial e uma história interessante a ser explorada, mas tudo acaba sendo deixado de lado. No fim, os personagens existem mais para representar ideias do que para despertar qualquer interesse real. A crítica social, embora presente, é tratada de forma óbvia, preguiçosa e pouco inspirada, sem qualquer nuance ou força capaz de provocar reflexão.

A obra lembra, ainda que vagamente, filmes como “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, e “Saltburn” (2023), de Emerald Fennell. As três produções se conectam pela forma como abordam a ideia da parasitagem em famílias ricas, explorando relações marcadas por interesse, manipulação e disputa por poder. No entanto, enquanto esses filmes presentes acima, constroem personagens complexos e tensões que evoluem de forma orgânica, “A Mulher Mais Rica do Mundo” nunca chega perto do mesmo nível de profundidade ou impacto, ficando restrito a uma versão diluída e inofensiva dessas ideias.

A direção de Klifa até acerta em alguns momentos, mas, no geral, frequentemente beira o fraco. Há, por parte do diretor, um certo cuidado técnico e uma noção do que pretende alcançar, ainda que isso apareça de forma pontual, em alguns planos bem construídos, em planos e contra-planos que funcionam ou em movimentos de câmera ocasionais que despertam algum interesse. No entanto, não é suficiente para sustentar uma direção verdadeiramente segura do que faz. Trata-se de uma condução tímida, quase sem personalidade, que raramente consegue elevar o material que tem em mãos ou imprimir qualquer identidade mais marcante à narrativa.

A direção de arte e o figurino até conseguem elevar um pouco a qualidade, principalmente ao reforçar o universo de luxo e a ostentação em que a história se apoia. Mas, tudo permanece dentro do esperado, sem qualquer tentativa real de ousadia ou criação de identidade visual mais marcante. O trabalho cumpre sua função básica de situar personagens e ambientes, mas o faz de forma segura e pouco inventiva, como se apenas reproduzisse códigos já estabelecidos desse tipo de narrativa sobre elite e riqueza. O resultado é uma estética funcional, porém genérica, que não acrescenta camadas à história nem contribui para torná-la mais interessante ou memorável. Outro ponto extremamente negativo, são os cabelos dos personagens, que, em diversos momentos, parecem artificiais e pouco convincentes. Em alguns casos, soam simplesmente falsos; em outros, não combinam nem minimamente com as próprias personas, comprometendo a caracterização e quebrando qualquer imersão que o filme ainda tenta sustentar.

No fim, “A Mulher Mais Rica do Mundo”, desperdiça uma premissa que poderia ter rendido uma sátira afiada e desconfortável, preferindo um caminho seguro, previsível e sem risco real. O filme parece satisfeito em apenas nomear seus temas, como se isso fosse suficiente para sustentar uma crítica social. O resultado é uma obra que confunde intenção com realização: fala sobre ganância, vazio e parasitagem, mas o faz de maneira tão superficial que acaba esvaziando justamente aquilo que tenta denunciar.

“Em vez de incomodar, apenas observa seus próprios alvos com distância educada e termina tão estéril quanto o universo que pretende criticar.”
Vinycius Rodrigues

A Mulher Mais Rica do Mundo (2026)

Duração 2h 03min Direção Thierry Klifa Roteiro Thierry Klifa, Cédric Anger Elenco Isabelle Huppert, Marina Foïs, Laurent Lafitte Onde assistir Ver plataformas no JustWatch

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