Há algo deliciosamente anacrônico em O Fim da Rua, um projeto menos narrativamente opaco do que os trabalhos anteriores de David Robert Mitchell (Under The Silver Lake, Corrente do Mal). Aqui o cineasta parece interessado em trocar parte do mistério psicológico de sua filmografia por uma aventura pulp de ficção científica bem mais direta, abraçando sem pudor o prazer escapista das matinês do passado. É um movimento curioso para um diretor tão associado à ambiguidade, e talvez justamente por isso o resultado seja tão divertido e em alguns momentos surpreendente.
Ambientado em 1982 — o mesmo ano de E.T. – O Extraterrestre —, o filme deixa bastante evidente seu DNA spielbergiano. Não apenas pela premissa de ficção científica, mas pelo esforço genuíno de recriar a textura cultural daquele momento. Mitchell parece interessado em recuperar um tipo muito específico de cinema de gênero: aquele em que o fantástico invade o cotidiano suburbano e a aventura convive com uma certa melancolia existencial. Há também flashes de paranoia governamental que remetem ao imaginário conspiratório da época, sem que o filme deixe de ser, acima de tudo, uma deliciosa peça de escapismo.
Se a narrativa é mais direta, Mitchell compensa isso com uma mise-en-scène extremamente estilizada. A influência de Brian De Palma se faz sentir nos inúmeros enquadramentos com dupla profundidade de campo, na maneira como o espaço é organizado durante a ação e, sobretudo, no prazer quase voyeurístico de observar aqueles personagens serem consumidos pela paranoia ao redor deles.
E é aí que O Fim da Rua encontra sua melhor faceta. Por trás da premissa existe um retrato bastante interessante da frustração suburbana. Vemos através dos Platt uma família preocupada em sustentar uma fachada de estabilidade enquanto esconde pânico financeiro e sonhos que ficaram pelo caminho. O problema é que o filme parece abandonar progressivamente essa camada temática conforme a invasão dos dinossauros ganha protagonismo. O comentário sobre a vida suburbana acaba sendo colocado em segundo plano justamente quando poderia tornar a aventura mais substancial.
Ainda assim, não tem como negar que os dinossauros funcionam maravilhosamente bem. Esse talvez seja o melhor uso dessas criaturas em um live-action desde King Kong de 2005. Além de trazerem o encantamento e o humor, elas também são ameaçadoras e sádicas. Existe um prazer quase perverso na maneira como o filme transforma esses animais em agentes de caos dentro daquele cenário doméstico tão cuidadosamente construído.
Dentro do elenco cabe a Anne Hathaway sustentar a maior parte da projeção. Ela encontra uma melancolia interessante em Denise Platt, uma dona de casa que se refugia na escrita enquanto tenta lidar com o fim iminente de seu casamento. É uma personagem que poderia facilmente existir apenas como arquétipo, mas da qual Hathaway procura sempre extrair algo por baixo de sua superfície.
O problema maior está no terceiro ato. A resolução do mistério é simultaneamente simples e estranhamente confusa em sua mecânica, como se o filme tivesse encontrado a resposta antes de descobrir exatamente como executá-la. Tudo parece acontecer rápido demais, e a sensação é de que algumas ideias precisavam de mais tempo para amadurecer. Um pouco mais de polimento provavelmente faria uma grande diferença no gancho emocional final, especialmente porque o primeiro e o segundo atos demonstram um controle formal tão louvável.
No fim, O Fim da Rua funciona melhor como uma homenagem simpática ao escapismo do que quando tenta resolver todas as suas próprias engrenagens narrativas.
O Fim da Rua (2026)
Duração 1h 40min Direção David Robert Mitchell Roteiro David Robert Mitchell Elenco Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella Onde assistir Ver plataformas no JustWatchCompartihar:

