CARA-DE-BARRO, de James Watkins (Não Fale o Mal, 2024), é um daqueles filmes que ninguém pediu, mas recebemos e, talvez por estarmos com a expectativa baixa por conta dos últimos projetos do DCU, apreciamos com surpresa por ser competente.
Apesar de estar conectado ao DCU — como a origem do Cara-de-Barro que vemos em Comando das Criaturas (2024) —, o filme tem uma forte aura de projeto solo, sem tentar estabelecer muitas conexões ou referências ao estilo da concorrente, a Marvel, por exemplo. E aí temos um trunfo.
CARA-DE-BARRO, ao não tomar tanta responsabilidade para si em representar uma história muito maior em um universo, consegue se concentrar melhor em seu próprio “microcosmo”, trazendo mais do que um filme de origem de vilão em um enredo de vingança e body horror.
Com pouco tempo de tela, vemos o breve apogeu de Matt Hagen (Tom Rhys Harries, O Retorno, 2024) — uma colcha de retalhos de várias versões do vilão desde a ideia original de Bob Kane (criador do Batman e do próprio personagem em 1940) —, indo de grande astro a vítima da máfia em poucos takes.
E aí já temos algumas cenas bem cruas, que podem realmente causar um desconforto nos mais sensíveis — e digo isso como algo positivo. A crueza das cenas de mutilação é bem explícita e traz o espectador para dentro das situações, quer queira, quer não. O processo de transformação em monstro é bem melhor do que qualquer versão dos quadrinhos, mas sofre com a rapidez com que o roteiro tem que fazer seus checkpoints para a transformação em vilão.
Mesmo assim, há boas interações do personagem principal com Corey Bowery (Joshua James, Cyrano, 2021), amigo de infância que também busca chegar aos holofotes; ou com um advogado traíra (Eddie Marsan, da série Magnatas do Crime), com cenas bem requintadas no gore e no horror. O maior espaço de tela com Matt é com a cientista Dra. Caitlin Bates (Naomi Ackie, Pisque Duas Vezes, 2024), que faz o papel de salvadora e figura-chave na trama.
Mais uma vez, não há nada a ressaltar nas atuações. Porém, o que se pode ressaltar na obra é como ela funciona bem sozinha como um filme de terror, com boas cenas cruas de mutilação e violência. Há um bom refino nas transformações físicas de Hagen e no que acontece com as vítimas, sem falar de um tempo bem gasto com a própria transformação física e psicológica do protagonista, que, mesmo depois do começo meio acelerado, caminha muito bem.
Não há uma tentativa de humanizar o novo vilão — o que tem sido uma prática muito comum em produções de hoje em dia —, e nem é necessário. Matt tem seus motivos para se tornar o que é e ninguém precisa entender ou apoiar (mas pode também). O foco é que o que ele se torna é bom de acompanhar e ver. Boa parte das mortes tenta ser algo único, e o esforço deve ser celebrado pela busca de entregar algo diferente ao público.
O terceiro ato se perde um pouco por conta da “vingança final” ficar meio boba onde era para ser o clímax, perdendo muito para uma sequência muito boa entre Matt e Bates que ocorre um pouco antes. O filme só toma ares de “filme de super-herói” em uma cena final, totalmente descartável, que deveria ser o auge do vilão completo, mas conta com mais de uma decisão preguiçosa (quem compra jornal na banca para saber das últimas notícias hoje em dia?).
Mesmo com esses percalços, CARA-DE-BARRO funciona muito bem como filme solo, sem usar muletas de multiverso. Se e quando for usado para sustentar o futuro do DCU, o Matt Hagen de Tom Rhys Harries tem que estar lá.
- Leonardo Valério
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