DIGGER, de Alejandro G. Iñárritu (Birdman, 2014), traz uma experiência um tanto quanto incomum na maneira de contar sua história. Não é inédita, mas é pouco usada.
Para não dar muito spoiler, basta dizer que é uma daquelas obras que são uma história dentro de outra história. Como esse fato não está no trailer o espectador irá estranhar no começo, mas isso é até positivo, pois a confusão inicial, faz com que se atente na tela com mais afinco, algo que está cada vez mais difícil nos dias atuais, com o crescente número de telefones acesos durante a sessão de cinema. Conforme a compreensão vai iluminando a mente de quem assiste, o longa também vai mostrando mais a divisão entre suas camadas, até que cada acontecimento esteja bem compreendido dentro de seu contexto e aí podemos voltar nossa atenção completamente para o que é debatido na tela.
Uma imensa catástrofe na natureza que não tem nada de natural, pois foi causada por mãos humanas. Na verdade, muito pelas mãos de Digger Rockwell (Tom Cruise, cine série Missão Impossível), que mesmo sendo o catalisador de tal calamidade, vindo dos piores pesadelo do mais lúgubre ecologista, também se apresenta como o único salvador de tal tragédia.
E aqui a sátira inicial, ganha ares de crítica caricata, na forma dos personagens, começando pelo personagem-título. O Digger de Cruise é o carro chefe de uma fileira imensa de personagens estereotipados, com seu figurino e sotaque sulistas de um barão do petróleo, com atitude arrogante, complementado com uma maquiagem que deixou o intérprete de Ethan Hunt, quase impossível de reconhecer. Todas as atitudes de Digger são exageradas e histriônicas, dando uma liberdade e oportunidade para o ator exibir uma energia formidável para os seus 64 anos. Digger é comicamente odiável, mas só não é cansativo pela explicação dada para a sua representação.
E nessa esteira, continuamos com esses estereótipos bem exagerados nas figuras do Presidente Compson (John Goodman, Kong: A Ilha da Caveira, 2017), egocêntrico e estúpido, fanático religioso, xenofóbico e homofóbico. Um homem fraco, bem aquém do cargo que ocupa, mas que se vê literalmente como o centro do mundo. Goodman que tem uma boa veia cômica, faz do ridículo, hilário, salvando o que talvez seja uma mão pesada demais para as cenas com “um quê” de panfletagem. Todo o círculo político americano segue essa linha de características superlativas de trejeitos americanos (Republicanos).
O personagem mais centrado (ou menos exagerado) é Ganesh (Riz Ahamed, Série A Isca), um especialista científico contratado por Digger que sempre tenta alertar sobre as catástrofes para o magnata do petróleo e o governo americano. A dinâmica de Ganesh e o círculo do protagonista são bem interessantes, pois o cientista é mostrado como o mais sensato e mesmo assim não deixa de ter seus exageros. Por questões óbvias ele escapou ao estilo caricato da maioria dos personagens. enquanto o “resto do mundo” representado pelo Parlamento Europeu, são feitos de figuras cinzentas, que parecem extremamente envelhecidas e parecendo pouco capazes de enfrentar um texano que segura as próprias bolas.
Aliás, nesse momento no parlamento, auge do filme, o diretor usa para atirar críticas para todos os lados, sobre como vivemos e tratamos o planeta. Desde as corporações que extraem recursos naturais de maneira irresponsável, visando somente o maior lucro possível, usando seu poder e dinheiro para passar por cima de quem tenta impedir e alertar o mundo sobre os iminentes perigos em que estamos colocando o planeta. Também, aponta para a hipocrisia das grandes nações e seus líderes que vociferam sobre como precisamos por exemplo diminuir a emissão de carbono, mas não abrem mão de ir para esses encontros em jatos particulares. Sobra até para nós, como sociedade com nosso consumismo cada vez mais desenfreado e superficial.
Nada nem ninguém é poupado numa cena enérgica que eclode de vez toda a teatralidade, que já vinha se apresentando com alguns mecanismos cada vez menos sutis e suas matizes lavadas, tanto nos cenários, quanto nos personagens. É interessante observar o desenrolar da trama, que traz para a reflexão, sem didatismo, usando muito do esdrúxulo, mas se explicando talvez para quem não está conseguindo entender, o que pode enfraquecer um pouco o filme para algumas audiências.
Alguns plots das subtramas mais realistas, enriquecem a visão do todo e fazem um contraponto com toda a exagerada história principal. Digger é um filme que faz refletir sem ser pesado e toda a sua estrutura evoca uma vontade de tentar algo artístico diferente e nisso o filme se sai muito bem. A construção dos personagens pode incomodar uma parcela do público, mas com certeza agradará muito uma grande parcela, mais uma vez, por motivos óbvios.
- Leonardo Valério
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