A Era de Prata dos quadrinhos de super-heróis começou em 1956, com o retorno do Flash em Showcase #4. A HQ da DC marcou o início de quase duas décadas de censura e criatividade reprimida, após o sucesso do polêmico livro A Sedução do Inocente, de Fredric Wertham. Nesse período, DC e Marvel abriram mão de qualquer seriedade e abraçaram histórias infantis, com tramas bobas e viajadas.
Essa fase chegaria ao fim em 1971, com A Morte de Gwen Stacy, que simbolizou o fim da inocência nos quadrinhos e o enfraquecimento do Comics Code, abrindo caminho para a Era de Bronze.
Mas afinal, quais foram as maiores tosquices produzidas nessa saudosa era? É isso que vamos descobrir — e garanto: foram muitas!
O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas: Batman foi talvez o mais prejudicado nesse período, com HQs para lá de ridículas, e o famoso seriado dos anos 1960, tornando-se a referência para o personagem. O Homem-Morcego enfrentava vilões do nível de Homem-Pipa, Homem-Gato, Arrasa Quarteirão e Dr. Tzin Tzin. O próprio herói também foi extremamente ridicularizado, com versões alternativas no mínimo questionáveis, como Batman Zebra, Batman Gênio da Lâmpada, Bat-Mirim e Batman Zur-En-Arrh, Bat-Bebê e muitos outros. Esses visuais exóticos fizeram parte da estratégia de clickbait usada pelas editoras (e você achando que o YouTube havia criado isso…), em que cores berrantes e quebras de padrão trariam leitores, mesmo que o conteúdo muitas vezes fosse ruim.
As HQs do herói eram meras esquetes, sem conexão, sem desenvolvimento, absolutamente nada. Nem mesmo Alfred escapou dessa fase, tendo sido morto em Detective Comics #328 (1964), após salvar a Dupla Dinâmica de uma armadilha. Posteriormente, ele foi revivido graças a exposição a radiação, tornando-se um mutante bizarro, voltando ao normal apenas em Batman #356 (1966), sem consequências marcantes. Assim, entende-se que a Era de Prata foi um momento de grande pobreza narrativa na vida do Cavaleiro das Trevas — uma fase em que o herói mais sombrio da DC foi reduzido a uma piada multicolorida.
Os infinitos poderes (e vergonhas) do Superman: Como já dissemos em publicações anteriores, o Homem de Aço estava simplesmente “em outro patamar” na Era de Prata, destruindo sistemas solares com espirros e puxando planetas por uma mera corrente. Mas, se não bastasse ser OP ao extremo, o Escoteiro Azul ainda receberia poderes um tanto questionáveis, como, por exemplo:
● Dispara mini-Supermans pelos dedos;
● Lançar arco-íris pelos dedos;
● Super-beijo (isso existe)
● Super-tecelagem;
● Super-Veterinária;
Se não bastasse isso, tivemos também as histórias mais insanas já concebidas sobre o herói. Em Superman #170 (1964), Lex Luthor tenta simplesmente voltar no tempo e casar-se com Lara-El, com o intuito de tornar-se PAI DO SUPERMAN. Você não leu errado, seu arqui-inimigo queria simplesmente transformá-lo em seu filho.
E quem não se lembra das novas Kriptonitas? Além da rocha verde, foram criadas também as vermelha, azul, roxa, amarela, branca e rosa, essa última sendo a mais icônica de todas. Ela foi interpretada como uma metáfora ultrapassada de “feminilização” do herói, refletindo os estereótipos de gênero da época, algo subentendido por meio de seu crescente interesse pelo guarda-roupa de Lois Lane. Falando em Lois, tivemos a esquecida HQ Lois Lane Vol. 1 #106 (1970), em que a repórter altera sua etnia por meio de uma máquina para infiltrar-se em um bairro negro estadunidense. Uma temática bem-intencionada, mas inegavelmente executada de forma estranha.
Mas, sem dúvida, o título mais bizarro dessa fase foi Superman ‘s Pal Jimmy Olsen. Em suas páginas, tivemos não só o amigo de Clark Kent engravidando, como até mesmo a dupla cantando ao lado dos Beatles, em uma tentativa desesperada de atingir um público mais jovem, que, digamos, não deu muito certo. Como vimos, o maior símbolo dos super-heróis, passou por poucas e boas neste período de censura.
O leite do Rei: Aquaman tem sido alvo de muitas brincadeiras, e essa trama ajuda a explicar o motivo. O herói dos mares é raptado por comerciantes ilegais que pretendem deixá-lo no deserto, acreditando que o calor e a falta de água irão levá-lo à morte. Como sucedeu com muitos heróis da Era de Prata da DC, Aquaman tinha uma estranha vulnerabilidade: ele estava murchando como uma velha esponja marinha sempre que a água não estava por perto.
Logo, surge Topo, o fiel polvo de Aquaman, que pensa que a solução é tirar leite de uma vaca e dar a Aquaman um banho de leite que o reidrata e o revitaliza de maneira mágica. A ideia de um polvo ordenhando vacas é tão absurda quanto parece, capturando perfeitamente o humor insensato das histórias da Era de Prata da DC.
Aranha de verdade:

A saga do Homem-Aranha de 6 braços ocorreu entre The Amazing Spider-Man # 100-102 (1971) e tornou-se um dos maiores memes da história do Amigão da Vizinhança. Escrita por Stan Lee e Gil Kane, a trama retrata Parker logo após a morte do pai de Gwen, George Stacy. Sentindo-se culpado pela morte do homem, Parker desenvolve um soro para retirar seus poderes, mas que acaba por aprofundar ainda mais sua mutação, triplicando seu número de braços. O herói tem que esconder sua nova condição em sua identidade civil, enquanto enfrenta a ameaça de Morbius. Por fim, o herói consegue reverter a mutação com a ajuda de Curt Connors. O resultado é uma das histórias mais lembradas da Marvel — uma mistura involuntária de horror corporal e comédia absurda, digna do período mais criativamente confuso da editora.
Porém, essa definitivamente não foi a última aparição dessa versão bizarra do herói, uma vez que foi referenciada até mesmo na série animada do herói nos anos 1990 e na minissérie What If.
O homem mais rápido (e mais zoado) do mundo:
Em uma narrativa com uma das capas mais icônicas da época de prata da DC, a cabeça do Flash se torna um problema após ser elogiado por resolver um caso de homicídio peculiar.
Neste conto deliciosamente esquisito da Era de Prata, Barry Allen investiga o homicídio do criminoso Rollo Jackson, deduzindo que o autor do crime disparou por uma chaminé utilizando um equipamento de espelhos para ter mira perfeita. Parece bem curioso, certo? Contudo, a situação fica ainda mais estranha…
Após receber aplausos por suas habilidades como detetive, a autoconfiança de Barry cresce, podendo até mesmo ser considerada exagerada, quando o Trapaceiro o eletrocuta silenciosamente com um feixe disfarçado de flash de câmera, resultando em sua cabeça inchada de forma absurda.
Enquanto enfrenta uma forte dor de cabeça, Flash consegue impedir um roubo de joias e logo se vê confrontando o Trapaceiro mais uma vez, que aguarda ansiosamente para ver a cabeça de seu rival estourar. No entanto, a narrativa toma um rumo inesperado quando Flash descobre que o pássaro mynah do Trapaceiro possui um antídoto contra a radiação capaz de reverter seu estado. Com essa informação, Flash elabora uma cura, derrota o Trapaceiro e retorna ao seu estado normal, deixando o vilão frustrado e sob custódia.
Este número retrata de forma exemplar a paixão da Era de Prata pela ciência incomum, transformações corporais exageradas e um toque de vilania cômica. Gorilla Grodd sequestra o corpo de um homem e transforma chimpanzés em ladrões – e ainda assim, transforma Flash em uma anomalia de circo em grande peso.
Atrapalhado em uma prisão tecnológica, Gorilla Grodd ingere uma pílula que projeta sua mente em William Dawson, um artista de circo que logo ensina chimpanzés a roubar em Central City. Quando Barry investiga, Dawson utiliza um equipamento que aumenta o peso do Flash para 1.000 libras, o ataca com amnésia e o força a participar de um espetáculo macabro.
Flash finalmente recupera sua memória enquanto perambula por um labirinto de espelhos, dirige-se a uma instalação de desidratação para eliminar seu peso adicional e volta a interromper Dawson, que agora tem pelos de gorila surgindo enquanto a influência de Grodd se esvai. Flash o derruba e termina sua jornada com um jantar ao lado de Iris.
É a loucura da Era de Prata em sua forma mais pura — gorilas telepatas, mutações grotescas e um herói que quase explode de tanto exagero. Como podemos ver, nem mesmo o Velocista Escarlate, conseguiu escapar das garras da Era de Prata e seus maluquices.
As capas mais bizarras: Como dissemos anteriormente, as capas clickbait foram bastante comuns nesse período, mas, algumas capas conseguem ser tão bizarras, que merecem ser analisadas separadamente:

Aqui, a Action Comics apostou em uma referência não tão sutil ao MC´Donalds, com o Homem de Aço comendo milhares de hambúrgueres de uma só vez, enquanto dezenas de garçonetes lhe trazem mais. Vai dizer que não iria ler essa só pela capa?

Essa é até difícil comentar, e curiosamente, vem justamente de Superman Pal´s Jimmy Olsen, vulgo: A revista mais bizarra que já recebeu o nome do Homem do Amanhã. Aqui, temos Superman com uma coroa indigêna norte-americana, cozinhando algo, enquanto uma jovem loira referenciando King Kong, contempla Jimmy pedindo um gorila em casamento. Preciso dizer mais alguma coisa?

Saindo de DC e Marvel, a Charlton Comics, criadora de personagens como Ozymandias, Rorschach, Fantasma, Besouro Azul e Questão (perdendo todos para a DC, por meio de vendas), também viveu tempos sombrios sob a censura. Veja a poluição visual dessa maravilha. O título é sublime (Nurses Monsters vs Hot Rodders), acompanhado de um verdadeiro desfile visual: Um carro ao estilo corrida maluca, um rato gigante cuspindo fogo em um King Kong falsificado, enquanto seu rabo é segurado por dois homens. Tudo isso, sob o olhar pasmo de uma enfermeira, que deve ser a representação do próprio leitor ao ver esse quadro.

World ‘s Finest Comics, era a revista responsável por reunir Superman, e a Dupla Dinâmica. São inúmeras capas bisonhas, mas talvez, essa com Superman servindo como cavalo para a charrete de Batman e Robin seja a cereja do bolo.
Bom, com isso, acho que deixamos bem claro o quão estranho foi esse período. Não apenas pela censura que limitava a criatividade, como também, pela péssima forma de driblá-la, como as capas falsamente chamativas. Qual você achou o tópico mais bizarro? Não deixe de opinar!
As capas mais bizarras: como dissemos anteriormente, as capas clickbait foram bastante comuns nesse período, mas algumas capas conseguem ser tão bizarras que merecem ser analisadas separadamente:
Aqui, a Action Comics apostou em uma referência não tão sutil ao McDonald’s, com o Homem de Aço comendo milhares de hambúrgueres de uma só vez, enquanto dezenas de garçonetes lhe trazem mais. Vai dizer que não iria ler essa só pela capa?
Essa é até difícil de comentar, e, curiosamente, vem justamente de Superman Pal’s Jimmy Olsen, vulgo: A revista mais bizarra que já recebeu o nome do Homem do Amanhã. Aqui, temos Superman com uma coroa indígena norte-americana, cozinhando algo, enquanto uma jovem loira, referenciando King Kong, contempla Jimmy pedindo um gorila em casamento. Preciso dizer mais alguma coisa?
Saindo de DC e Marvel, a Charlton Comics, criadora de personagens como Ozymandias, Rorschach, Fantasma, Besouro Azul e Questão (perdendo todos para a DC, por meio de vendas), também viveu tempos sombrios sob a censura. Veja a poluição visual dessa maravilha. O título é sublime (Nurses Monsters vs. Hot Rodders), acompanhado de um verdadeiro desfile visual: um carro ao estilo Corrida Maluca, um rato gigante cuspindo fogo em um King Kong falsificado, enquanto seu rabo é segurado por dois homens. Tudo isso sob o olhar pasmo de uma enfermeira, que deve ser a representação do próprio leitor ao ver esse quadro.
World’s Finest Comics era a revista responsável por reunir Superman e a Dupla Dinâmica. São inúmeras capas bisonhas, mas talvez essa com Superman servindo como cavalo para a charrete de Batman e Robin seja a cereja do bolo.
A Era de Prata foi um espetáculo de cores, exageros e maluquices — um reflexo do medo da censura e da ânsia por vender. Hoje, olhamos para esse período não como um erro, mas como um delírio coletivo que pavimentou o caminho para os quadrinhos modernos.
E você? Qual dessas pérolas você acha a mais inacreditável?
Este artigo foi escrito em estreita colaboração com o site Larda Cultura Pop
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