“Marsupilami – Confusão a Bordo”(2025) marca o retorno aos cinemas da icônica criatura amarela de manchas pretas criada, em 1952, pelo cartunista belga André Franquin. Conhecido principalmente pelas histórias em quadrinhos e animações infantis, o Marsupilami ganha uma nova adaptação que opta por recomeçar do zero, sem qualquer ligação com produções anteriores, buscando apresentar o personagem a uma nova geração.
A trama acompanha David Ticoule (Philippe Lacheau), um funcionário de zoológico que, após provocar uma série de confusões por conta de sua própria imprudência, é ameaçado e obrigado por seu chefe, Jeffrey Malone (Jean Reno), a participar de uma missão de contrabando. Ao lado do filho, Léo (Corentin Guillot), e da ex-esposa, Tess (Élodie Fontan), David embarca em um cruzeiro pela costa da América do Sul transportando um misterioso ovo. Durante a viagem, o objeto finalmente eclode, revelando um filhote de Marsupilami, rapidamente apelidado de Bibi pela família.
Ao longo de 1h39min, o filme aposta em um humor escrachado, repleto de situações absurdas, piadas de duplo sentido e muitos trocadilhos. Em meio a tudo isso, a narrativa ainda encontra espaços para inserir pequenas críticas à ganância, ao tráfico de animais silvestres e ao comportamento humano diante do desconhecido, sem jamais abandonar sua vocação para o entretenimento leve. Dessa forma, a produção consegue dialogar com públicos de diferentes idades: enquanto as crianças se encantam com o carisma e a energia de Bibi, os adultos encontram referências cinematográficas e piadas voltadas para um público mais maduro.
Grande parte desse resultado passa pela boa química do elenco. Philippe Lacheau, conduz a narrativa com o exagero cômico característico de seus trabalhos, explorando o humor e o timing das situações absurdas. Jamel Debbouze(Pablito Camaron), Tarek Boudali(Rick Salsa) e Julien Arruti( Stéphane Buisson), completam o time e carregam muitos dos momentos cômicos nas costas, enquanto Corentin Guillot e Élodie Fontan trazem o drama que a história precisa. Jean Reno(Jeffrey Malone), por sua vez, interpretar um antagonista caricato, aproveitando sua presença de cena para equilibrar autoridade e comicidade. Embora os personagens não possuam grande profundidade psicológica nem passem por transformações significativas, são suficientemente carismáticos para sustentar a proposta despretensiosa da obra e criar uma dinâmica envolvente.
Narrativamente, “Marsupilami – Confusão a Bordo” não foge da estrutura clássica das comédias de aventura. O roteiro é previsível, os conflitos são resolvidos de maneira simples e praticamente não há riscos criativos em sua construção. Ainda assim, o longa demonstra plena consciência de sua proposta. Ao assumir sua identidade de besteirol, mantém um ritmo acelerado, acumula situações absurdas e evita longas interrupções dramáticas, garantindo uma experiência divertida do início ao fim.
Visualmente, apresenta qualidades que superam sua proposta essencialmente cômica. A fotografia aproveita bem as paisagens naturais da América do Sul, destacando florestas exuberantes, rios e cenários tropicais, enquanto as sequências ambientadas no cruzeiro exploram a imponência e o luxo da embarcação. A direção investe em enquadramentos dinâmicos, movimentos de câmera fluidos e uma montagem ágil, recursos que reforçam o ritmo acelerado da narrativa e potencializam tanto as cenas de ação quanto os momentos de humor.
Na direção, Lacheau demonstra compreender perfeitamente o tom que deseja alcançar. Conhecido por seu estilo irreverente, conduz a história com segurança, equilibrando comédia, aventura e emoção sem perder de vista o entretenimento. Mesmo acumulando as funções de diretor e protagonista, consegue entregar um trabalho consistente em ambas, conduzindo o filme com personalidade e energia.
Outro ponto que merece destaque é a homenagem a “E.T. – O Extraterrestre”(1982). Em uma das sequências mais inspiradas do longa, a referência ao clássico de Steven Spielberg é utilizada de maneira inteligente, funcionando como muito mais do que um simples aceno nostálgico. A produção estabelece um paralelo afetivo entre a relação de Elliott e E.T. e o vínculo construído entre Bibi e sua nova família. Fora que, ao recriar a cena da bicicleta do clássico de 82, combina humor, aventura e emoção, tornando-se um dos momentos mais memoráveis da narrativa e evidenciando o coração presente por trás de toda a irreverência do filme.
Mesmo sem apresentar uma história particularmente marcante ou inovadora, “Marsupilami – Confusão a Bordo” conquista pela simpatia de seu protagonista. Bibi é, sem dúvida, o grande destaque da produção. Seu comportamento curioso, suas expressões exageradas e a interação constante com os demais personagens rendem algumas das cenas mais divertidas e afetuosas do longa. Ao final, a narrativa reforça uma mensagem simples, mas eficiente, sobre união familiar, amizade e respeito aos animais, encerrando a aventura com um desfecho otimista. Ainda que algumas piadas sejam repetidas e o excesso de humor ocasionalmente comprometa o ritmo, o saldo final é positivo. O filme entrega exatamente aquilo que se propõe a ser: uma comédia leve, carismática e acessível, capaz de divertir toda a família sem grandes pretensões, mas com competência suficiente para tornar o retorno do Marsupilami uma experiência bastante agradável.

Marsupilami: Confusão à Bordo (2026)
Duração 1h 39minDireção Philippe LacheauRoteiro Philippe Lacheau, Pierre Dudan (II)Elenco Philippe Lacheau, Jamel Debbouze, Élodie FontanOnde assistir Ver plataformas no JustWatchCompartihar:















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