Crítica: Senhor Ninguém Contra Putin

Crítica: Senhor Ninguém Contra Putin

“Senhor Ninguém Contra Putin” aborda os perigos de um Estado autoritário e a forma como ele pode influenciar, e até moldar a mente da população, sobretudo dos jovens. O documentário adota uma linguagem experimental e coloca o próprio diretor como fio condutor da narrativa, aproximando o espectador da realidade retratada. Ao expor fatos e situações de maneira direta, a obra não só apresenta algo, como também evidencia tudo aquilo que deseja transmitir.

O documentário de David Borenstein e Pavel Talankin acompanha o jovem russo Talankin, que trabalha gravando aulas em uma escola onde estudou e passou grande parte de sua vida. Com o início da guerra na Ucrânia, o que antes parecia um ambiente escolar comum, passa a se transformar gradualmente em um espaço de propaganda e vigilância ideológica. A partir desse ponto, o jovem começa a perceber como o seu entorno muda de forma inquietante, revelando os efeitos de um regime autoritário que invade até os espaços mais cotidianos da vida.

Pavel trabalha muito bem a condução da obra. É sério no que se propõe, mas não se torna rígido; sabe equilibrar momentos de humor e inserir uma sátira inteligente ao longo da narrativa. Como o próprio título já sugere, trata-se de um filme extremamente politizado, tem uma mensagem clara e notória, o diretor demonstra dominar com clareza tudo que deseja expor e criticar. É uma história pessoal, com o personagem sendo o próprio diretor, o que ajuda e muito na forma de passar ao publico o que deseja.

Tudo é registrado 100%, com material majoritariamente captado pelo próprio protagonista. A narrativa opta por fazer pouco uso de imagens prontas ou de arquivos externos; quando recorre a esse artifício, é de maneira pontual. A prioridade parece sempre ser registrar, com a maior proximidade possível, aquilo que o filme deseja expor.

A trama é marcada por altos e baixos, que transformam a experiência em uma verdadeira montanha-russa emocional. A narrativa evita ser algo de uni-tom, alternando momentos de aparente calmaria com passagens de forte tensão e drama, o que contribui para tornar o documentário mais dinâmico e imprevisível. A montagem é, sem dúvida, um dos grandes trunfos da obra. Ela é utilizada com inteligência e funciona sempre a favor da narrativa, organizando o vasto material captado de forma coesa e dinâmica. É através dela que o documentário ganha o ritmo que precisa.

Com um final impactante e belíssimo, Pavel Talankin demonstra saber exatamente como encerrar sua obra. A narrativa parte de um cenário de luto, com a morte de um de seus ex-alunos na guerra, caminhando gradualmente para uma ideia de esperança em um futuro melhor. O desfecho é conduzido com sensibilidade: suas palavras, lidas para uma turma da escola, ultrapassam aquele espaço e parecem se dirigir não apenas aos alunos, mas também ao povo e ao mundo. É um encerramento simples, porém poderoso, que sintetiza o tom político e humano que o documentário constrói ao longo de toda a sua trajetória.

“Em resumo, é a triste realidade da guerra e de um estado repressor, que tem o jovem no meio disso tudo.”
Vinycius Rodrigues
 Crítica: Senhor Ninguém Contra Putin

Senhor Ninguém Contra Putin (2025)

Duração 1h30min Direção David Borenstein Roteiro David Borenstein, Pavel Talankin Elenco Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwyn Onde assistir Ver plataformas no JustWatch

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