Crítica: Socorro

Crítica: Socorro

Depois de quase 16 anos desde sua última incursão no horror, Sam Raimi enfim (meio que) retorna ao gênero que estabeleceu seu nome na indústria e no coração de tantos cinéfilos.
“Socorro” gira em torno de Linda (Rachel McAdams), uma promissora funcionaria que dedicou anos a sua empresa na esperança de alcançar um cargo executivo. Seus sonhos são frustrados quando Bradley (Dylan O’Brien), o filho do recém falecido CEO, assume o controle. Tudo muda após um acidente de avião que levava uma comitiva de trabalho da empresa rumo a uma viagem de negócios. Linda e Bradley acabam sendo os únicos sobreviventes dessa tragédia e se veem presos em uma ilha deserta. A relação hierárquica do mundo corporativo começa a surgir, só que de maneira diferente.


E ai reside o maior trunfo do filme.


O roteiro pouco parece se importar em dar ao publico “alguém para torcer”. Ao invés disso ele constrói gradativamente uma gangorra de poder perversa numa tentativa de explorar como o ego humano pode ser tão perigoso quanto às forças da natureza. É em sua essência uma historia sobre submissão, opressão e os limites morais do ser humano.


O longa felizmente não se restringe a cair em mais um pastiche das sátiras “eat the rich”, tão recorrente nos últimos anos. Isso por que ele parece pouco interessado em falar sobre luta de classes. Ao invés disso, transfere a cultura tóxica do trabalho para o ambiente inóspito de uma ilha deserta, frisando seu ponto ao sobrepor tarefas mundanas com habilidades essenciais para a sobrevivência numa situação extrema. Raimi utiliza esse isolamento como um motor narrativo para transforma a ilha em um espaço de conflito emocional, de disputa de poder e de paranoia.


Rachel McAdams entrega das performances mais interessantes da sua carreira. Seu timing cômico é essencial para o tipo de humor que Raimi procura. Linda Liddle é simplesmente um enigma melancólico que vai se revelando aos poucos, brincando com a empatia que o espectador sente por ela logo de cara. McAdams entrega uma performance sem vaidade e sem medo de parar em lugares bastantes grotescos. É uma personagem trágica que faz o filme se tornar imediatamente envolvente. Ver ela florescendo na floresta, podendo finalmente explorar suas habilidades e instintos sem nenhuma amarra, é um espetáculo de evolução.


Do outro lado da moeda temos o Bradley de Dylan O’Brien, que assume a função de força antagônica frente a Linda. O’Brien consegue encontrar nuances suficientes para humanizar um personagem acostumado a ser casualmente cruel. Se Linda encontra sua força naquele local, Bradley por outro lado tem que lidar pela primeira vez com a sensação de impotência frente a sistema maior que ele. É desenvolvendo esse lado patético e traiçoeiro que O’Brien brilha.

Se tem algo que acaba diminuindo os esforços de “Socorro” é pouco tempo de preparação que dedica a vida e as dinâmicas estabelecidas no escritório. Talvez um pouco mais tempo ali pudesse ampliar o escopo da sua narrativa de sobrevivência. Além disso, o uso de CGI em algumas cenas cruciais acaba revelando uma artificialidade que diminui parte da tensão e do impacto da violência gráfica.


“Socorro” funciona como um lembrete de que Sam Raimi continua sendo irreverente. Mesmo sem alcançar o frenesi excessivo de seus primeiros trabalhos, o filme prova que o espírito anárquico de Raimi permanece afiado. Há gore, vômito e muito deboche aqui. Um thriller de aspirações modestas, mas delicioso o suficiente para prender até o fim.

8
Muito bom
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“Um thriller de aspirações modestas, mas delicioso o suficiente para prender até o fim.”
Raphael Aguiar
 Crítica: Socorro

Socorro! (2026)

Duração 1h53m Direção Sam Raimi Roteiro Damian Shannon, Mark Swift Elenco Rachel McAdams, Dylan O’Brien Onde assistir Ver plataformas no JustWatch

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