O Japão vem sofrendo um encolhimento gradativo da sua população. O baixo índice de natalidade continua batendo recordes anualmente. Fica cada vez mais claro que essa epidemia de solidão vem se tornando mais severa na terra do sol nascente. Devido ao grande estigma social em relação à busca por terapia, outros meios menos convencionais vêm sendo adotados numa tentativa de diminuir essa falta de conexão social.
“Família de Aluguel”, dirigido pela cineasta nipo-americana Hikari, tenta traduzir um pouco do que move o universo das agências de afeto no Japão. Nelas, atores e atrizes são contratados para “interpretar” amigos, filhos, mães, pais, avós, amantes… Basicamente qualquer tipo de relação que vá de alguma forma satisfazer – nem que seja brevemente – o vazio emocional dos seus clientes. De certa forma esses atores acabam se tornando uma espécie de agentes sociais de saúde mental.
A trama acompanha Phillip (Brendan Fraser), um ator com dificuldades financeiras que viajou para o Japão na esperança de conseguir um bom papel, mas que acabou tendo que sobreviver estrelando alguns comerciais de TV ridículos.
Phillip acaba aceitando entrar para uma dessas agencias de afeto e a trama se dedica a cobrir dois dos seus casos de forma mais aprofundada. Em um deles Philip deve interpretar um jornalista interessado em escrever a biografia de um ator japonês que na velhice vem sendo tomado pela depressão. O segundo caso gira em torno da relação de Philip com Mia, uma jovem japonesa de 11 anos. Acontece que Philip foi contratado pela mãe de Mia para interpretar o pai ausente dela, afim de que sua presença acabe aumentando as chances da filha no processo seletivo para uma escola de prestigio. À medida que esses trabalhos se tornam mais íntimos para Phillip, ele descobre que não vai ser tão fácil assim impedir que seus sentimentos se misturem com seus deveres profissionais.
“Família de Aluguel” tenta encontrar uma balança do entre o fascinante e o inquietante nessa comercialização das relações humanas. Não tenta tecer nenhum juízo moral em cima de quem contrata esses serviços e muitos menos em relação aos agentes que fornecem ele.
Cabe a Brendan Fraser imbuir o texto de credibilidade. Seu Philip é uma alma sensível que tenta ir além do esperado com os seus clientes. Fraser consegue vender de forma clara o dom empático do seu personagem, capaz de detectar as vulnerabilidades das pessoas a sua volta. Ele também consegue dar vida a faceta mais leve dessa história. O humor de peixe fora d’água está longe de ser original, mas graças a Fraser não ficamos com a sensação de que essa é uma historia sobre um ocidental “ensinando” orientais a se relacionar uns com os outros.
Outro destaque na produção é Mari Yamamoto (da série “Monarch”), que vive o papel de Aiko, uma atriz especialista em interpretar femme fatales envolvidas em casos extraconjugais. Seu personagem parece buscar não só uma forma de preencher as fantasias dos seus clientes, mas também de realizar suas próprias fantasias enquanto performer. É uma contradição que sugere uma perspectiva mais ácida sobre esse tema, que talvez pudesse adicionar uma nuance maior na trama se fosse feito por alguém como Sean Baker.
Uma pena que o filme que acabe sendo deixando essa personagem de lado em prol de uma mensagem mais edificante. Talvez esse seja o maior problema de “Família de Aluguel”. Conforme avança o filme acaba sendo tomado por uma certa timidez. Tudo acaba sendo tão superficialmente recatado e polido que o melodrama e sentimentalismo tomam conta. Sim, funcionam de forma eficiente, graças ao seu elenco. Mas a impressão que fica é a de que existe possibilidades mais interessantes a serem exploradas dentro desse tema.

Família de Aluguel (2025)
Duração 1h 50m Direção Hikari Roteiro Hikari Elenco Brendan Fraser, Mari Yamamoto, Shannon Gorman Onde assistir Ver plataformas no JustWatchCompartihar:















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