Crítica: Backrooms: Um Não-Lugar

Crítica: Backrooms: Um Não-Lugar

Backrooms – Um Não Lugar” é um terror psicológico capaz de prender o espectador do início ao fim. A obra mergulha em uma trama intrigante e envolvente, que expande aos poucos um universo perturbador e cheio de mistérios. O filme utiliza ambientes claustrofóbicos, silêncio, tensão psicológica e uma direção criativa para construir uma experiência verdadeiramente imersiva. Cada cenário transmite uma sensação de vazio e desorientação, aumentando ainda mais o medo e a paranoia.

A trama acompanha Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, dono de uma decadente loja de móveis, que carrega nas costas o peso de um divórcio e diversos problemas psicológicos. Por conta disso, tenta manter sua mente estável enquanto realiza sessões com sua psiquiatra, Mary, vivida por Renate Reinsve. O homem descobre, no andar subterrâneo de sua loja, uma passagem que o conduz para um universo distópico, onde corredores parecem infinitos, os espaços são embaralhados e a realidade perde completamente o sentido. Fascinado pelo mistério daquele universo, Clark desenvolve uma obsessão cada vez mais perigosa pela dimensão desconhecida.

Desde seus primeiros minutos, “Backrooms” já deixa claro a que veio. O longa utiliza gravações analógicas em primeira pessoa, misturadas a uma estética extremamente crua e realista. Com isso, cria uma sensação constante de imersão e desconforto, remetendo diretamente ao estilo consagrado em “A Bruxa de Blair”. A escolha pelo formato “found footage” funciona de maneira eficiente nos momentos em que aparece, agregando não apenas à questão psicológica, mas também oferecendo um estilo diferenciado ao filme.

A fotografia de Jeremy Cox é um dos grandes destaques da obra. Constrói imagens vivas e visualmente marcantes, utilizando cores muito bem definidas e contrastadas, criando uma identidade estética própria para o longa. Esse trabalho visual se torna ainda mais interessante justamente por diferenciar o mundo real do universo distorcido presente nos Backrooms. Enquanto a realidade apresenta tons mais naturais e diversas cores, a dimensão alternativa aposta em tons visualmente desconfortáveis e iluminação artificial, reforçando a sensação de estranheza e desorientação.

Cada cenário transmite uma inquietação constante graças ao cuidado técnico presente na composição das cenas. Sem dúvidas, Cox contribui diretamente para a atmosfera do filme. Sua fotografia não apenas embeleza a obra visualmente, mas também se torna peça fundamental na construção de sua identidade única.

As atuações de Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve são, sem dúvidas, um dos pontos mais fortes de “Backrooms”. Ambos entregam performances intensas, conseguindo transmitir com autenticidade o peso emocional e psicológico de seus personagens. Ejiofor trabalha de forma convincente a decadência mental de Clark. O ator equilibra vulnerabilidade, paranoia e desespero de maneira natural, fazendo com que o público compreenda suas dores e acompanhe sua lenta perda de sanidade. Já Reinsve entrega uma atuação igualmente poderosa. Mary carrega traumas profundos e conflitos internos que são transmitidos de forma sensível e humana pela atriz. Sua presença em cena adiciona ainda mais profundidade emocional à narrativa, principalmente pela maneira como suas próprias fragilidades refletem os temas centrais do filme.

A direção de Kane Parsons demonstra muita personalidade e maturidade criativa. Mesmo trabalhando com uma proposta extremamente experimental e psicológica, o diretor mantém uma condução sóbria e segura, deixando claro que possui total controle sobre a atmosfera e a narrativa que deseja construir. Parsons faz escolhas de enquadramento muito bem pensadas, utilizando planos longos, corredores vazios e movimentos de câmera que intensificam a sensação de desconforto. Suas escolhas estilísticas são extremamente nítidas e acabam funcionando como uma assinatura autoral, diferenciando o longa de outros filmes do gênero.

Em determinados momentos, a obra se torna excessiva em sua proposta contemplativa, fazendo com que algumas sequências se arrastem mais do que deveriam. A insistência em um ritmo lento contrasta com a proposta da maioria dos filmes do gênero, o que pode cansar parte do público. Há trechos em que a trama poderia se desenvolver de forma mais ágil, sem prolongar excessivamente o suspense. Embora essa lentidão contribua para a sensação de desconforto, em alguns momentos prejudica o ritmo da narrativa.

Outro fator que certamente dividirá opiniões é a decisão do filme de não entregar respostas concretas para tudo. Parsons opta por uma abordagem mais interpretativa e misteriosa, evitando explicar completamente o que são os Backrooms ou aprofundar mais o funcionamento daquele universo. O final aberto reforça ainda mais essa proposta enigmática, deixando diversas perguntas sem respostas e permitindo múltiplas interpretações. Para alguns espectadores, isso torna a experiência ainda mais perturbadora e interessante, ampliando o horror psicológico e o sentimento de vazio existencial. Já para outros, a falta de explicações pode gerar frustração.

Em síntese, “Backrooms – Um Não Lugar” é um grande acerto da A24. A obra demonstra personalidade e identidade visual. Tudo no longa é cuidadosamente pensado e consegue executar exatamente aquilo que se propõe. É uma experiência que utiliza seu universo para discutir temas profundamente humanos. O filme trabalha questões como loucura, isolamento, obsessão e solidão de maneira pesada, transformando os Backrooms em uma representação metafórica do vazio emocional e da deterioração mental. Existe um forte pensamento filosófico por trás da narrativa, especialmente na maneira como aborda o desconhecido, a sensação de não pertencimento e o medo existencial.

8
Muito bom
Mais Críticas
“É um filme que vale muito a pena ser assistido, principalmente para quem aprecia terror psicológico, atmosferas perturbadoras e narrativas cheias de simbolismo.”
Vinycius Rodrigues
 Crítica: Backrooms: Um Não-Lugar

Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

Duração 1h 45min Direção Kane Parsons Roteiro Roberto Patino Elenco Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass Onde assistir Ver plataformas no JustWatch

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