Em O Riso e a Faca, do Pedro Pinho, nada é mastigado e particularmente eu adoro isso. É um filme que não tá nem aí pra te agradar o tempo todo. Ele te puxa, te provoca… e às vezes até te deixa meio sem chão.
O riso aqui não é leve. Ele vem quase como um reflexo, meio nervoso. E a “faca” aparece nas relações, nos silêncios, nos desconfortos que vão crescendo cada vez mais. É tudo muito humano, mas sem aquela organização certinha que a gente tá acostumado. As coisas simplesmente acontecem ou às vezes nem acontecem, só ficam ali, pairando.
A câmera parece que tá sempre procurando alguma coisa que nunca se entrega completamente. E isso cria uma sensação estranha (no melhor sentido): a gente não tá só assistindo, tá meio que invadindo. Como se estivesse vendo algo íntimo demais, que talvez nem fosse pra gente ver.
Tem uma mistura de documental com ficção que deixa tudo ainda mais real e, ao mesmo tempo, mais incômodo. E eu acho que esse é o ponto: o filme não quer te deixar confortável. Ele quer que você sinta. Mesmo quando isso significa estranhar ou até resistir.
E acho importante falar de como esse filme nasce também. O Riso e a Faca é uma coprodução entre países europeus e africanos, especialmente Portugal e Guiné-Bissau, e isso não é só um detalhe de bastidor, tá dentro do próprio filme. Essa troca (e esse choque) aparece na tela o tempo inteiro. Não é um olhar “de fora” tentando explicar um lugar, é um encontro meio torto, cheio de ruído, de disputa, de assimetria. E isso deixa tudo mais honesto.
Na direção, o Pedro Pinho segue muito fiel ao tipo de cinema que ele já vinha construindo, um cinema de observação, paciente, que confia no tempo e no corpo dos atores. Ele não conduz a gente pela mão. Ele cria situações e deixa elas respirarem, às vezes até mais do que a gente espera. Tem uma liberdade ali que pode soar caótica, mas que também parece muito consciente: os cortes não “explicam”, a narrativa não se fecha, e a sensação é de que o filme tá sempre em movimento, como se ainda estivesse sendo descoberto.
E isso se conecta direto com a história. Porque, no fundo, a trama é até simples: um engenheiro português vai pra Guiné-Bissau trabalhar na construção de uma estrada. Só que o filme não trata isso como uma jornada tradicional. Não tem começo, meio e fim bem desenhados. O que existe é um acúmulo de experiências, encontros, deslocamentos.
A história vai se abrindo em várias direções, novas pessoas entram, outras somem, situações surgem e não necessariamente se resolvem. E isso pode dar a sensação de desorientação, mas também cria algo muito próximo da vida real. Porque nem tudo se conclui, nem tudo faz sentido na hora.
E, aos poucos, esse “trabalho” do protagonista vai ficando em segundo plano. O que cresce mesmo é o desconforto dele, o deslocamento, e essa percepção meio silenciosa de que ele faz parte de uma estrutura maior, uma que envolve poder, território e uma ideia de progresso que nem sempre é tão neutra quanto parece.
As atuações de Sérgio Coragem, Jonathan Guilherme e Cleo Diára são absurdas de naturais. Tem momentos que parecem tão reais que você esquece completamente que aquilo é encenação.
O Riso e a Faca não quer ser consumido, ele quer ser vivido. Estreia no Brasil dia 30 de abril.

O Riso e a Faca (2026)
Duração 3h 31min Direção Pedro Pinho Roteiro Pedro Pinho, Miguel Seabra Lopes Elenco Sérgio Coragem, Cleo Diára, Jonathan Guilherme Onde assistir Ver plataformas no JustWatchCompartihar:















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