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Crítica: Vidas Entrelaçadas

Crítica: Vidas Entrelaçadas

“Vidas Entrelaçadas” é um drama de forte sensibilidade, com uma abordagem quase documental que mergulha de forma delicada e profunda nos sonhos, nas escolhas de carreira e nos encontros humanos. Uma obra que encontra beleza no cotidiano e transforma o ordinário em algo genuinamente tocante.

O longa acompanha diferentes personagens e suas trajetórias, mas concentra seu olhar em três figuras centrais: Maxine (Angelina Jolie), uma cineasta que, enquanto trabalha em seu mais novo projeto, descobre um câncer de mama; Ada (Anyier Ane), uma jovem modelo sudanesa que entra na profissão em busca de ajudar a família; e Angèle (Ella Rumpf), uma maquiadora solitária. Embora não desenvolvam uma amizade direta, suas vidas se cruzam de maneira sutil, revelando como cada uma, à sua forma, impacta o caminho da outra.

Cada personagem parece construído com extremo cuidado. As três conseguem conquistar o público com naturalidade, criando uma conexão genuinamente fantástica com o espectador. Jolie está muito bem em cena, vivendo uma trajetória que dialoga com sua própria experiência pessoal, ao mesmo tempo entrega uma atuação sutil, quase etérea. Em diversos momentos é tão natural, que faz o drama até parecer uma história documental. Anyier, embora ainda não tenha a mesma bagagem da veterana, já demonstra uma presença marcante. Apoia-se em uma expressividade contida, que se revela no olhar e nos gestos, transmitindo uma ingenuidade tocante sem recorrer a excessos. Já Rumpf é uma performance mais silenciosa, mas igualmente poderosa. É de detalhes, observações e escuta, funciona como um elo quase invisível entre as demais histórias. É na sutileza de suas ações que a personagem ganha força, revelando camadas que enriquecem ainda mais o conjunto.

A obra retrata com bastante precisão os processos criativos por trás da construção de um filme e de um desfile. Vale destacar que desfiles reais da Chanel foram incorporados à narrativa, o que contribui para a sensação de autenticidade. O roteiro, por vezes se mostra arrastado e, ao optar por não se concentrar em apenas uma protagonista, acaba deixando algumas camadas menos exploradas, mas ainda assim acerta em sua proposta geral. Há por exemplo, um cuidado evidente na forma como apresenta cada personagem e suas trajetórias, sabendo exatamente o momento de inserir e desenvolver cada um dentro da narrativa.

Alice Winocour conduz a obra com uma direção segura e sensível, fundamental para que a proposta funcione. A diretora demonstra um olhar apurado na escolha de planos e nos movimentos de câmera. Com o uso de câmera na mão por exemplo, em certas cenas constrói uma linguagem que valoriza os pequenos momentos e permite que a narrativa flua com naturalidade. Ela sabe dosar o drama, evitando excessos, já que sua ideia é trabalhar força e superação, mas mantendo o ritmo que que o filme exige.

Ao também assinar o roteiro, Winocour reforça sua atenção aos momentos, conduzindo a história com sensibilidade e explorando temas como solidariedade e superação de maneira leve, sem recorrer a soluções fáceis ou apelos exagerados.

Em síntese, é um bom filme, não tem nada de excepcional com momentos marcantes ou uma narrativa extremamente elaborada, mas é capaz de emocionar ao transmitir uma mensagem leve e profundamente humana. É uma obra que convida a uma análise mais atenta, sustentada por uma naturalidade impressionante e uma sensibilidade constante em sua condução. Ainda assim, tropeça em alguns momentos de ritmo, ainda podendo se beneficiar de um maior aprofundamento em certos aspectos de sua narrativa.

“No fim, “Vidas Entrelaçadas” se destaca mais pelo que faz sentir do que necessariamente pelo que desenvolve, encontrando na delicadeza de seus olhares sua maior força.”
Vinycius Rodrigues
 Crítica: Vidas Entrelaçadas

Vidas Entrelaçadas (2026)

Duração 1h 47min Direção Alice Winocour Roteiro Alice Winocour Elenco Angelina Jolie, Ella Rumpf, Anyier Anei Onde assistir Ver plataformas no JustWatch

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