CRÍTICA | THUNDERBOLTS*
Durante muito tempo, Thunderbolts* foi aquele filme que parecia fadado ao esquecimento antes mesmo de nascer. Sem o peso de grandes nomes, sem o hype que normalmente acompanha os projetos da Marvel e com um título que mais parece uma anotação de rodapé no caderno de planejamento do Kevin Feige, era fácil duvidar do impacto que ele poderia causar. Mas, às vezes, o subestimado surpreende. E o longa dirigido por Jake Schreier faz justamente isso — surpreende. Não pela grandiosidade, mas pela coragem de ser estranho, disfuncional e, acima de tudo, humano.

Na trama, acompanhamos Yelena Belova (Florence Pugh), uma ex-agente da Sala Vermelha e também a nova Viúva Negra, reunida com um grupo de anti-heróis que, à primeira vista, parecem tudo menos uma equipe funcional. Juntos, eles enfrentam uma ameaça em comum — e mais do que isso, encaram os próprios traumas, fracassos e medos, em uma narrativa que, embora pareça seguir o padrão Marvel, se destaca justamente por escapar dele.
O filme se apoia em um tipo de humor ácido, direto, que não busca o alívio cômico tradicional, mas sim cutucar feridas abertas nos próprios personagens. A comédia aqui é desconfortável — no melhor sentido — e faz rir enquanto revela, em camadas, as cicatrizes de cada integrante. E quando se trata da ação, há uma abordagem mais crua e física. São poucos os momentos explosivos, mas todos eles têm peso e propósito. Cada soco, cada disparo, carrega a densidade de personagens que já viram (e causaram) o pior do mundo.

Um dos maiores méritos do filme está justamente em sua direção de arte e fotografia. Andrew Droz Palermo (A Lenda do Cavaleiro Verde) entrega um visual que inicialmente parece sombrio e sem esperança — uma paleta gélida que reflete as rachaduras emocionais do grupo. Com o passar do tempo, essa fotografia se transforma sutilmente, refletindo a mudança de perspectiva daqueles personagens, mesmo que o mundo ao redor permaneça cinza.
O elenco é propositalmente caótico, formado por peças que, em teoria, não encaixam. Uma Viúva Negra secundária (Yelena Belova, Florence Pugh), um Capitão América fajuto (Agente Americano, Wyatt Russell) – piada recorrente no filme, uma mulher que atravessa paredes (Fantasma, Hannah John-Kamen), outra que apenas copia movimentos (Treinadora, Olga Kurylenko), um velho nostálgico dos tempos soviéticos (Guardião Vermelho, David Harbour) e um homem centenário com um braço de metal (Sebastian Stan, Bucky Barnes).

É a definição perfeita de desajuste — e, paradoxalmente, funciona. Funciona porque há verdade em suas interações e uma química que surge não do alinhamento, mas do atrito. Yelena (Florence Pugh) é o coração do grupo. Seu olhar perdido, suas ações precisas e seu humor sarcástico formam o eixo emocional do filme. Ao seu redor, personagens como Walker (Wyatt Russel) e Bucky (Sebastian Stan) orbitam com camadas que resgatam traumas passados e identidades mal resolvidas.
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Destaque também para Bob (Lewis Pullman), o personagem mais misterioso e intrigante do longa. Por trás de sua postura ingênua e aparência despretensiosa, esconde-se o Sentinela — e, com ele, o Vazio. Essa dualidade é tratada com uma sensibilidade rara dentro do MCU. O Vazio não é apenas uma ameaça física; ele é a personificação do medo, da depressão e da autossabotagem. Sua presença é quase metafísica, perturbadora, e eleva o filme a um nível simbólico que muitos blockbusters não se arriscam a tocar.

E é aí que Thunderbolts* revela sua verdadeira força: sua coragem em tratar, mesmo que de forma sutil, temas como a depressão, o luto, a culpa e a incapacidade de seguir em frente. Não há grandes discursos, nem lições explícitas. Mas há sentimentos. Há dor. Há humanidade. E isso faz com que o filme se diferencie — não só dentro do MCU, mas também no gênero de super-heróis como um todo.
O terceiro ato entrega bem o que promete, com uma virada narrativa eficiente e cenas de impacto emocional, além de duas cenas pós-créditos que complementam o tom da obra — uma com alívio cômico, outra com pistas do futuro.

Mas talvez o maior trunfo de Thunderbolts* seja sua natureza camuflada. O título engana. O pôster também. O que parece mais um experimento esquecível dentro da fase instável da Marvel acaba se revelando como um dos projetos mais autorais, ousados e relevantes do estúdio nos últimos anos. Não é só um longa sobre heróis problemáticos. É um filme sobre pessoas quebradas tentando não quebrar mais ninguém.

Agradecemos a Marvel e a Disney Brasil pelo convite!
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